13 de Agosto de 2008, 10h56 – Hostel de Praga
“Finalmente um sítio com uma caminha que não balança o caminho todo. Duas noites a dormir nos comboios dá cabo de uma pessoa. E eu como ainda não me habituei, não consigo dormir como deve de ser.
Bem começando por ontem, o dia foi cheio de emoções. Por volta das 8h30 começamos a levantar, pois estava a aproximar-se a estação na qual sairíamos para apanhar o comboio até Auschwitz. Saímos do comboio na estação que se chamava Trzbenia, uma terriola lá bem no meio do nada. Connosco saiu também um rapaz do Chile chamado Sebastian, que iria fazer o mesmo percurso que nós, visitar Auschwitz e depois apanhar o comboio nocturno para Praga.
Ainda faltava uma hora e alguns minutos para que o comboio chegasse e por isso fomos fazendo conversa enquanto o Sebastian tentava comprar o bilhete de comboio para Auschwitz. Pedir bilhete era fácil, pagar era o mais difícil, uma vez que não aceitavam euros, só Zlotys.
Um polaco que compreen
dia e falava mais ou menos inglês, percebeu que precisávamos de ajuda e resolveu ajudar-nos. Disse que também ia apanhar o mesmo comboio que nós, para Auschwitz, e lá ajudou o Sebastian a comprar o bilhete.
Como ainda faltava algum tempo para apanhar o comboio, ficámos todos à conversa a conhecermo-nos uns aos outros. O rapaz polaco chamava-se Lucas. O Sebastian já andava há um mês a passear pela Europa e dizia que não se tinha fartado. Não sei bem como, uma vez que não tinha companhia de ninguém, apenas das pessoas que ia conhecendo ao longo do caminho.
Entretanto lá chegou o comboio e após uma viagem de cerca de 45 minutos chegámos a Oświęcim (Auschwitz). Na zona da estação parece, e até é, uma terriola no meio do nada, sem grandes atractivos ali na zona. Apenas uns cafés e umas papelarias. Mais uma vez, o Lucas ajudou-nos com a língua da zona e deu-nos todas as indicações para chegarmos aos campos de concentração. Deu-nos ainda o número de telefone para o chamar caso precisássemos de ajuda.
Os campos ficavam a poucos quilómetros da estação e por isso apanhámos o autocarro até lá. Não nos deixou lá, mas sim um pouco mais atrás, mas uma senhora do autocarro tinha sido carinhosa o suficiente para nos dar as indicações que faltavam para chegar lá.
Chegados à entrada do campo KL Auschwitz I fomos até aos pontos turísticos.
Nós sabíamos que a visita era gratuita, mas queríamos ver que mais coisas poderíamos utilizar na visita, e obter os guias. Chegámos à banca e perguntámos se tinha o guia em Português, e qual não é o nosso espanto, quando a senhora diz que sim e nos vende o guia. Pedimos também mais um em espanhol para o Sebastian e lá iniciámos a visita.
No KL Auschwitz I sente-se o peso do silêncio, e embora estivessem lá muitos turistas, o som que se ouvia mais era o arrastar de pés dos visitantes. O KL Auschwitz I, agora transformado em museu, conta a história toda da 2ª guerra mundial, desde como começou, até à libertação. Estão lá expostas fotografias, documentos e os bens materiais dos judeus trazidos para ali. Vê-se os sapatos, as malas, os tachos, óculos e também os cabelos das mulheres, cortados à entrada do campo, e que posteriormente eram enviados para a indústria têxtil alemã para fazer tecido.
O bloco 6 denominado “A vida do prisioneiro” foi o que mais me impressionou. Eu conheço a história através dos livros utilizados nas aulas de história, filmes, documentários, etc., mas ver ali tão perto e no local onde aconteceram é completamente diferente. Ver as roupas das crianças, os seus brinquedos, saber aquilo que comiam, que era praticamente nada e ver aquilo por que tinham que passar todos os dias é duro.
Nunca hei-de compreender, em toda a minha vida, como pode o ser humano ser tão cruel para o seu semelhante apenas porque têm ideias e crenças e maneiras de estar na vida diferentes.
Continuando a visita e depois de passar por quase todos os pavilhões, chegámos à zona da câmara de gás e crematório. Lá dentro é escuro, feio e assombroso. Num espaço tão pequeno, foram mortos milhares de pessoas e ainda por cima, aqueles que não morriam logo com o efeito do gás, tinham a sua morte no crematório, ainda vivas.
A câmara de gás finalizava a visita das instalações do KL Auschwitz I. Do lado de fora sentámo-nos nuns bancos para descansar um pouco e comer. Entretanto passaram por nós um grupo de portugueses. O Sérgio disse “Boa tarde” aos gritos e eles responderam e seguiram caminho. Mal sabíamos todos que mais tarde nos íamos cruzar novamente.
Bem, ainda faltava visitar o KL Auschwitz II – Birkenau e para isso era preciso apanhar o autocarro. Como também era gratuito ia à pinha, mas a viage
m também era curta.
KL Auschwitz II – Birkenau é enorme. Está bastante danificado, pois antes do dia da libertação as SS puseram fogo aos crematórios de modo a evitar deixarem provas. Ainda se vê algumas chaminés e os barracões onde os judeus dormiam em condições miseráveis, sem qualidade de vida nenhuma.
Ainda subimos à torre por onde passavam os comboios que entravam no campo, para termos uma melhor perspectiva do campo (da qual resultou a foto panorâmica do topo do blog). Apanhámos então o autocarro de volta para o campo I, onde ainda fomos a tempo para assistir a um filme sobre o holocausto. O filme era uma espécie de resumo fotográfico. Achei que era curto, mas era bonito.
Já com tudo visto decidimos regressar à estação. Apesar de só termos comboio às 23h46 era melhor ficar na estação do que vaguear pelas ruas, pois o Lucas já nos tinha dito que podia ser perigoso. Ainda tínhamos que esperar pelo Sebastian que andava na sua visita, pois todos 3 estávamos a dividir um cacifo na estação.
Descansámos um pouco na estação, depois fomos jantar a um restaurante ali ao pé. Já tínhamos jantado melhor, mas ali naquela zona não havia muito a fazer. Após o jantar, regressámos para o interior da estação para passar o tempo à conversa. Uns bancos atrás de nós começamos a ouvir português, e ao virarmo-nos para ver quem era, reconhecemos o rapaz e as raparigas. Era o grupo a quem dissemos boa tarde no ca
mpo.
Passando um pouco, o rapaz veio perguntar-nos, em inglês, se tínhamos bilhete para o comboio das 23h46. Nós respondemos em português e, a partir daí, foi “tuguisse” até à hora do comboio. Eles também estavam a fazer o interrail de 22 dias, tendo começado a viagem no dia 2. Eram eles a Marta, a Inês, a Patrícia e o Pedro. Conversámos sobre o que já tínhamos visto, trocámos impressões e ideias para as próximas cidades. Sobre Berlim fomos unânimes, ninguém gostou.
Aproximando-se a hora do comboio, fomos todos para a linha e preparámo-nos para a viagem. Entretanto ainda apareceu o Lucas que veio saber se estávamos bem e ainda ajudou a traduzir o que a senhora da estação dizia no altifalante. Trocámos de e-mails e mais nada. Não tivemos nem tempo de despedir pois a nossa carruagem era longe da deles.
Na nossa cabine já estava tudo a dormir. Fizemos as camas e fomos dormir. De manhã foi só levantar, levar as coisas para a porta e sair na estação. Apanhámos ainda o regional para a estação central, onde comprámos bilhete para Viena e Roma. É já no Sábado.
Depois fomos comprar o passe de metro e viemos para a hostel. Pelo que vi até agora de Praga estou a gostar. Pelo menos os jardins parecem muito bem tratados e o aspecto geral aqui da zona é bastante limpinho. Daqui a pouco devemos ir dar uma volta.
Sofia.”